O Maximus Festival, evento que promete ficar marcado como uma das maiores reuniões nacionais de fãs e artistas das várias vertentes do metal realizou neste sábado, 13, sua segunda edição brasileira. Com um público confirmado de 40 mil pessoas, contou com a participação de 15 bandas e artistas divididos em três palcos no Autódromo de Interlagos.

Controvérsias e problemas

Vamos direto ao ponto: com a crescente profissionalização dos festivais realizadas em território nacional, dos grandes Rock In Rio e Lollapalooza até os de pequeno e médio porte, como João Rock e Bananada, o público brasileiro vem se acostumando (com razão) a um determinado padrão de qualidade nesse perfil de evento. Mesmo estando apenas na sua segunda edição, o Maximus deve estar atento em um (provável?) futuro para a qualidade da experiência que está proporcionando aos seus visitantes.

Houveram extensos relatos de problemas com ingressos, como dificuldade de compra, entrega, retirada e ativação das pulseiras; preços oscilantes devido promoções de última hora, fazendo com que os preços de uma única entrada variassem de 100 a 500 reais; a grande quantidade de filas, poucas opções de alimentação e de sanitários, levantando a hipótese de que a organização não contava com a presença de tantos visitantes; o câmbio dos “metals”, cuja única explicação seria a de disfarçar os preços muito altos (R$11,25 em uma lata de cerveja do patrocinador – apesar de que há casas em São Paulo onde a mesma só se compra a partir dos R$15); e, principalmente, a diferença na qualidade de som entre as bandas, problema que afetou profundamente os artistas do palco Maximus e nem tanto o Thunder Dome ou Rockatansky.

Ainda assim, entre o mar de camisas pretas, rostos pintados e muita atitude, a insatisfação da platéia com a troca de horários dos shows e as promoções de última hora pareceu dar lugar ao êxtase de reunir sons de diversas gerações do metal num só espaço.

Apresentações

Nem Liminha Ouviu

E a gente também não.

Oitão

Com oito anos de estrada e dois álbuns na bagagem, a Oitão fica inevitavelmente vinculada à imagem do chef Henrique Fogaça, referência da gastronomia paulista que ganhou ainda mais fama com sua participação do semanal Masterchef, da Band. Com um hardcore de protesto e músicas repletas de mensagens politizadas, a banda surpreende pela intensidade da resposta do público a cada nova música entoada por Fogaça. Como uma das primeiras bandas a subir ao palco, contou com um tempo de show extremamente reduzido, o que não foi o bastante para desanimar as poucas centenas de pessoas que organizavam uma razoável roda punk em meio ao chão seco do autódromo ao som de “Tiro na Rótula”, “Chacina” e “Imagem da Besta”.

Red Fang

Os americanos do Red Fang contam com 12 anos de estrada, uma produção estável de excelentes álbuns de estúdio e incrível presença de palco. Não são poucos os elogios que podem ser feitos ao quarteto e dedicação é apenas um deles. Quando questionados sobre o pouco tempo de palco disponível para eles (apenas 30 minutos), foram categóricos: “gostaríamos que fosse mais, claro, mas nos preparamos para isso e montamos o melhor setlist que conseguimos pensar, vamos dar o nosso melhor e não perder tempo para tocar o máximo possível”. E foi isso que aconteceu: em 30 minutos, emendaram sem pausa “Blood Like Cream”, “Malverde”, “Crowns in Swine”, “Wires”, “Flies”, “Dirt Wizard” e a magnífica e já clássica “Prehistoric Dog”.

Mesmo sem ser uma banda marcante no cenário nacional e tendo feito suas primeiras apresentações em pequenos palcos em 2012, os músicas do Red Fang demonstram um grande carinho pelo público brasileiro, prometendo uma volta em 2018 para uma apresentação mais longa onde, de preferência, sejam eles as estrelas. Certamente merecem.

Rob Zombie

Representando – e muito bem! – a velha guarda do metal, Rob Zombie fez um show trash, que poderia ter sido muito melhor aproveitado num cenário noturno (o músico reclamou algumas vezes do sol).

Feroz e repleto de momentos marcantes da carreira do artista, o setlist pode ter passado despercebido pelos alheios mais jovens, mas incendiou o público fiel com Get Your Boots On! That’s the End of Rock and Roll, Well, Everybody’s Fucking in a U.F.O. e agradou em cheio os saudosos admiradores da banda White Zombie com Thunder Kiss ’65 e More Human Than Human.

Five Finger Death Punch

Pesado e cheio de atitude, o Five Finger Death Punch fez tremer as estruturas do palco Rockatansky apresentando um repertório cheio de sucessos e percorrendo a história do grupo com faixas de praticamente todos álbuns, desde The Way of the Fist até o mais recente disco, Got Your Six.

Impressionados com a animação do público, o vocalista Ivan Moody e seus companheiros de banda incentivaram as rodas e levaram os fãs ao delírio com Bad Company e Burn Mf, antes de encerrar a apresentação com The House Of the Rising Sun.

Slayer

Mais de 5 anos após sua última passagem pelo Brasil, o trash metal do Slayer volta a empolgar o público brasileiro como uma das principais bandas do Maximus. Apesar de não aparecer como headliner, mas sim como “abertura” para as mais atuais Prophets of Rage e Linkin Park, a intensa resposta do público assim que o grupo americano subiu ao palco mostra claramente que eles nunca serão coadjuvantes. Houve, inclusive, uma certa controvérsia quanto à sua escalação durante o fim da tarde e não encerrando a noite: para muitos fãs eram a grande estrela do festival em comparação a “um Rage (Against the Machine) fake” e um “Linkin Park eletrônico”.

Seu setlist, que empolgou e incentivou uma roda punk na beira do palco que podia ser vista claramente de qualquer ponto do festival, contou com canções obviamente clássicas: “Repentless”, “Disciple”, “Postmortem”, ‘”Hate Worldwide”, “War Ensemble”, “When The Stilness Comes”, “Mandatory Suicide”, “Fight Till Death”, “Dead Skin Mask”, “Seasons in the Abyss”, “Hell Awaits”, “South of Heaven”, “Raining Blood”, “Black Magic” e “Angel of Death”.

Prophets of Rage

Uma das grandes atrações da noite, o Prophets of Rage arrastou uma multidão embalada num setlist sem surpresas, mas cheio de nostalgia e energia. O repertório aliás, foi um presente para os saudosos fãs do Rage Against the Machine e contou com diversos sucessos do grupo, além da participação de Tim McIlrath, do Rise Against em Kick Out the Jams e da versão explosiva de Fight the Power enquanto Tom Morello exibia um notório Fora Temer em sua guitarra.

Com lançamento de seu primeiro álbum previsto para setembro, a banda apresentou a nova Unfuck The World agradando a plateia e encerrou a perfomance com a poderosa Killing In the Name, mostrando que seu potencial vai muito além de reunir a genialidade RATM as lendas o Cypress Hill e Public Enemy.

Linkin Park

Em face das reclamações dos fãs quanto ao novo disco e a cada vez maior distância da banda em relação aos seus primeiros trabalhos, Chester Bennington respondeu com um belo “superem”. Seu retorno – curto, grosso e com uma leve falta de consideração em relação aos fãs – recebeu críticas de outros músicas, como Corey Taylor (Slipknot, Stone Sour).

Apesar disso, é pela recepção dúbia à banda de encerramento do Maximus 2017 que vemos que talvez seja hora da banda colocar a mão na consciência e pensar até que ponto vale reinventar quem você é ou investir em criar algo novo do zero, como fez o próprio Corey Taylor com o Stone Sour.

Hoje, a questão é: de qual Linkin Park você é fã? O público mais “velho” (se você pode chamar milennials de velhos), fãs de Hybrid Theory e Meteora, dificilmente se encontra nas músicas dos últimos quatro álbuns e especialmente no One More Light. Com toques cada vez maiores de detalhes eletrônicos e sons melódicas, o trabalho do grupo californiano vem se distanciando cada vez mais dos vocais rasgados e guitarras pesadas do início e sua carreira. Ao mesmo tempo, quem conheceu Linkin Park pós-2006 já não tem esse mesmo apego e se entretêm apaixonadamente pelos novos trabalhos.

De qualquer modo, o cenário do fim da noite de sábado era de realização. Grande parte do público presente (durante todo o dia) exibia uma extensa coleção de camisetas do Linkin Park, número que se refletiu em um autódromo ainda lotado até o fim da última música. A péssima qualidade do som, que para dizer o mínimo estava extremamente baixo, não eclipsou a empolgação dos fãs, cuja voz pode ser ouvida claramente ao longo da apresentação.

A apresentação, catártica em alguns momentos e frustrante em outros, se provou um carrossel de emoções que trouxe à tona lembranças de dias melhores para os fãs da banda, os quais certamente passarão a próxima semana recuperando a voz. O setlist trouxe “The Catalyst”, “Wastelands”, “Talking to Myself”, “Burn It Down”, “One Step Closer”, “Castle of Glass”, “Good Goodbye”, “Lost In The Echo”, “Battle Symphony”, “New Divide”, “Breaking The Habit”, “Crawling”, “Leave Out All The Rest”, “Somewhere I Belong”, “What I’ve Done”, “In The End”, “Faint”, “Numb”, “Heavy”, “Papercut” e “Bleed It Out”.

Por Ester Barreto e Kayo Medeiros