O Rio de Janeiro já viveu noites memoráveis quando o assunto é metal, mas a apresentação do Demon Hunter no Sacadura 154 entra com facilidade para a prateleira das experiências que ficam marcadas na pele e no tímpano. Em sua segunda passagem pela cidade, a banda mostrou que não apenas mantém sua relevância após mais de duas décadas de carreira, como segue afiando sua própria identidade sonora com a precisão de quem sabe exatamente o impacto que quer causar.

A casa estava tomada antes mesmo das luzes diminuírem. A sensação era de expectativa suspensa, quase elétrica. E quando os primeiros acordes de “Sorrow Light the Way” ecoaram, a atmosfera se rompeu como uma represa: o público explodiu em uníssono, dando início a uma jornada que misturou catarse, celebração e uma entrega coletiva rara de se ver.

Sem enrolações, o quinteto emendou “Heaven Don’t Cry” e “Collapsing”, mantendo o clima de avalanche controlada. Do palco, Ryan Clark parecia operar em equilíbrio perfeito entre a postura firme e a sensibilidade emocional que marca suas interpretações. E, da pista, o público respondia com intensidade proporcional, cantando cada verso, cada respiro, como se fizesse parte da própria engrenagem da banda.

Quando vieram “The Heart of a Graveyard”, “I Will Fail You” e “Dead Flowers”, o Sacadura vibrou como uma entidade viva. Era possível sentir o chão pulsar. Há shows em que a banda está acima do público; outros, em que a plateia domina o ambiente. Aqui, os dois lados se encontraram no mesmo eixo, e isso diz muito sobre por que o Demon Hunter possui uma base tão devota ao redor do mundo.

É difícil falar em “ponto alto”, porque a apresentação manteve um patamar quase inabalável de força e precisão. Se alguém insistisse em escolher momentos de destaque, “Cold Winter Sun” e “Infected” certamente estariam entre eles, pela potência quase ritualística com que foram recebidas. “Cut to Fit” e “I’m Done” também ganharam versões afiadas, som ecoando limpo e agressivo, sem perder o peso característico da banda.

Mas nada superou o que aconteceu nos instantes finais. Em “Storm the Gates of Hell”, Ryan Clark tomou a decisão que todo fã sonha e todo fotógrafo agradece: desceu do palco e caminhou diretamente para o meio da multidão. Cercado por braços erguidos, celulares tremendo e vozes saturadas, o vocalista transformou a música em um ato quase ritual, selando uma espécie de pacto emocional entre banda e público carioca. Foi o momento em que o Sacadura pareceu pequeno demais para conter aquela energia.

O Demon Hunter foi pontual, preciso e absolutamente generoso em entrega. Não faltou presença de palco, não faltou técnica, não faltou emoção…. e, principalmente, não faltou conexão. Se o metal é, acima de tudo, uma experiência coletiva, o que aconteceu no Rio foi sua versão mais pura: suor, grito, corpo e fé (no sentido secular e no outro também) colocados à prova por uma banda que continua sabendo exatamente como tocar a alma de quem escolheu segui-la.

Texto: Jeferson Costa| Fotos e vídeos: Lucas Tavares

DEMON HUNTER – Setlist
Sacadura 154, Rio de Janeiro, Brazil
06 de dezembro de 2025

 

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