O Rio tem dessas tardes que viram memória musical sem esforço. Você chega, a casa abre cedo, a brisa de verão ajuda e, quando percebe, já está no meio de um coro coletivo. Foi essa a temperatura do Polifonia de Verão, no Vivo Rio, com um roteiro que atravessou gerações do emo/pop punk e desembocou em um show principal com cara de grande palco — daqueles que não pedem licença para transformar plateia em parte do espetáculo.
Ao longo da sequência, a noite foi costurando estética e energia de um jeito muito orgânico. Karen Jonz trazendo presença cênica e precisão vocal, Dibob “batendo ponto” com carisma de veterana carioca, Catch Side acionando o gatilho da nostalgia sem soar datada, Kamaitachi colocando o público exatamente no ponto de ebulição e, por fim, Supercombo confirmando por que ocupa o lugar de atração principal.

Karen Jonz © Foto de Melissa Viana / Zimel
Karen Jonz ft. Lucas Silveira: performance afiada, química evidente e participação que levantou o teto
Karen é daquelas artistas que dominam o palco sem precisar exagerar: postura, intenção, dinâmica com tudo no lugar. E quando Lucas Silveira entrou para a participação especial, a coisa ganhou outra camada, porque não foi “feat por feat”: houve diálogo, encaixe e aquela sensação de que a música cresceu ao vivo. No repertório, entraram faixas como “Moletom”, além de momentos que mostraram como ela transita bem entre o alternativo e um pop mais íntimo, com punch de banda.
O mais interessante é que essa parceria não é pontual: Karen e Lucas vêm transformando relação e estúdio em projeto consistente, com canções lançadas em conjunto e com Lucas também assinado na produção do trabalho recente dela, o que ajuda a explicar o entrosamento que aparece quando os dois dividem microfone.

Dibob © Foto de Melissa Viana / Zimel
Dibob “batendo ponto”: hits, humor e a facilidade de quem conhece o próprio público
Dibob fez o que sabe fazer. Tirou sorriso, puxou canto e manteve a pista acesa com repertório que não precisa de introdução para quem viveu os anos 2000 de peito aberto. Teve “1 x 0 Eu”, “Amante Profissional” e até cover que funciona como senha geracional, tipo “In the End” (Linkin Park).
E um detalhe que vale registrar: o clima “perto de casa” apareceu até no discurso. Em entrevista, Gesta, baixista da banda, ressaltou a vibe carioca e elogiou o time de produção, e faz sentido, porque a engrenagem técnica da noite não deixou nada escapar.

Catch Side © Foto de Melissa Viana / Zimel
Catch Side: nostalgia sem muleta e um retorno com cara de acontecimento
Se tem uma coisa que dá para medir ao vivo é quando uma banda não depende apenas do passado para funcionar no presente. Catch Side foi exatamente isso. Guitarras na frente, refrões que o público sabe onde entrar e um set que alternou peso e melodrama com segurança. A banda abriu com “Hiperventilando”, passou por “Cinquenta” e “Penhasco”, e ainda brincou com “Welcome to the Black Parade” (My Chemical Romance), com a plateia respondendo como se fosse parte do arranjo.
E teve o peso simbólico do momento: a apresentação foi tratada como única da banda em 2026, o que ajuda a explicar a intensidade da recepção.

Kamaitachi © Melissa Viana / Zimel
Kamaitachi: energia, estética própria e a entrega perfeita para o show principal
Kamaitachi tem uma presença que mistura contundência e teatralidade sem parecer pose. Ele sustentou o meio da noite com repertório que conversa com a fase recente do artista, incluindo músicas como “Morgana”, “O Treco” e “Anjo”, e conseguiu fazer uma ponte rara: colocou o público em estado de atenção e, ao mesmo tempo, deixou tudo pronto para o impacto da atração principal.
O fechamento dessa “passagem de bastão” foi literal: mais tarde, Kamaitachi voltou ao palco para cantar “Infame” com o Supercombo, num daqueles encontros que parecem planejados para estourar câmera de celular.

Supercombo © Foto de Melissa Viana / Zimel
Supercombo: público envolvido do início ao fim, em apresentação com cara de grande headliner
Quando o Supercombo entrou, já dava para sentir que a casa estava pronta, e a banda leu isso com inteligência. O show veio costurado pela fase Caranguejo, com direito a estética (sim, com figurinos temáticos) e repertório que equilibra catarse e afeto: “Piloto Automático”, “Amianto”, “Intervenção”, “Adeus, Aurora”, “Dona do Meu Tempo”, além de “Caranguejo” e “Luz Vermelha”. O tipo de set que não “passa por hits”; ele monta uma narrativa para o público participar.
E dá para cravar sem exagero: foi um show que envolveu a plateia com performance digna de headliner, aquele momento em que você olha em volta e percebe que não existe mais “artista de um lado e público do outro”; virou uma massa cantando junto e respondendo a cada virada do palco.
Estrutura do Vivo Rio e merchandising: quando a experiência é pensada do palco ao balcão
Parte do acerto do Polifonia de Verão foi tratar a experiência como um todo. O Vivo Rio funcionou com fluidez (casa abrindo às 15h, palco e bastidores girando sem ruído), e o conjunto som + luz foi acima da média: não era “efeito bonito”; era design que parecia conhecer cada música, sincronizando climas e ataques no tempo certo.
No merchandising, outro ponto forte: loja bem montada e variedade real, com destaque para o merch oficial produzido pela Time Bomb Wear e peças de vestuário que iam além do básico. E, para colecionador, teve até ação envolvendo vinil autografado, aquele tipo de detalhe que transforma compra em lembrança.
Polifonia de Verão. 11 de janeiro de 2026 (domingo), no Vivo Rio
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