O Cypress Hill entrou em cena às 18h deste sábado (21), no Palco Samsung Galaxy, ocupando aquele horário ingrato e, ao mesmo tempo, decisivo de festival: o da virada entre a curiosidade da tarde e a densidade da noite. Não era um show qualquer no line-up. Era a volta de um grupo que ajudou a desenhar a gramática do hip-hop pesado dos anos 1990 e que apareceu em Interlagos como um corpo estranho muito bem-vindo no meio da lógica pop do Lolla.
A passagem pelo festival veio embalada pela fase “Black Sunday Live”, vinculada ao álbum ao vivo gravado no Royal Albert Hall, em Londres, e reforçou esse momento curioso da carreira do Cypress Hill: o de uma banda que já não precisa provar relevância, mas segue encontrando maneiras de reposicionar o próprio legado. Em entrevista antes do festival, Sen Dog resumiu bem o espírito da apresentação ao dizer que, para o grupo, a energia no palco não muda muito entre tocar para duas mil ou duzentas mil pessoas. Esse tipo de declaração, no caso deles, soa menos como frase de divulgação e mais como método.
As primeiras repercussões publicadas depois do show apontaram justamente para isso: um set que agarrou o público pela fusão de rap, hardcore e identidade latina, sem transformar o grupo em peça de museu noventista. Faz sentido. As prévias de repertório já indicavam que o imaginário em torno da apresentação passava por clássicos como “Insane in the Brain”, “(Rock) Superstar”, “How I Could Just Kill a Man” e “Dr. Greenthumb” — músicas que continuam funcionando porque carregam peso, refrão e atitude em doses difíceis de domesticar.
Num festival que vive da alternância rápida entre tendências, algoritmos e estrelas do presente, o Cypress Hill ofereceu outra coisa: permanência. Seu show de hoje não parece ter sido apenas um passeio nostálgico, mas uma lembrança bastante concreta de que certos nomes sobrevivem porque criaram um vocabulário próprio — e, quando esse vocabulário volta a soar alto, ainda encontra quem responda de imediato.
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