Existe algo quase melancólico — e, ao mesmo tempo, reconfortante — em assistir a O Diabo Veste Prada 2. O filme funciona como um abraço quentinho em uma geração muito específica: millennials que cresceram imaginando uma vida atravessando ruas de Nova York às oito da manhã, um copo de Starbucks na mão, atrasadas para um emprego dos sonhos em alguma revista de moda, cultura ou entretenimento.

Esse imaginário não nasceu sozinho. Ele foi construído por filmes como O Diabo Veste Prada, O Diário da Princesa, Nunca Fui Beijada e De Repente 30 — narrativas que transformaram o trabalho na comunicação em algo glamouroso, urbano e cheio de propósito. Mas o que a sequência faz de mais interessante é tensionar justamente essa promessa.
Aqui, a Runway já não é apenas uma revista: é um conglomerado de conteúdo, atravessado por métricas, patrocínios e pela constante necessidade de adaptação. O jornalismo, como o conhecíamos, não existe mais da mesma forma — e o filme não tenta romantizar isso.

A maior virada, no entanto, está em Miranda Priestly.
Se antes ela era uma figura quase mitológica — impenetrável, poderosa, incontestável — agora ela aparece mais humana, mais vulnerável, quase desgastada. E essa escolha narrativa é talvez a mais potente do filme. Porque há algo de estranhamente catártico em ver até mesmo o topo da hierarquia sendo atingido pelas transformações do mercado.
Não são só os “peões do xadrez” que sofrem.

A crise da comunicação, que há anos atravessa redações, freelancers, social medias e criadores independentes, também alcança quem antes parecia intocável. A autoridade editorial perde espaço para anunciantes, a curadoria cede lugar à performance, e o conteúdo passa a existir em função da sobrevivência financeira.

E ainda assim, o filme não abandona o seu DNA: há humor, leveza e aquele tom de conforto típico das comédias que marcaram uma geração. Essa escolha suaviza o impacto da crítica — e talvez seja justamente por isso que ela funciona tão bem.
Mas talvez o aspecto mais interessante da experiência não esteja apenas no filme — e sim em quem o assiste.
Durante a sessão fechada, cercada por criadores de conteúdo e jornalistas, ficou evidente que as inquietações não são as mesmas para todos. Enquanto jovens ao meu lado discutiam crescimento entre plataformas — Instagram estagnado, TikTok em ascensão —, eu me via atravessada por outra questão: a dificuldade de sequer acompanhar esse ritmo constante de produção.

E é nesse deslocamento que surge uma pergunta inevitável:
como diferentes gerações de profissionais da comunicação vão absorver esse filme?
Para alguns, ele pode soar como um retrato dolorosamente preciso de uma transição vivida. Para outros, talvez seja apenas o funcionamento natural de um sistema que sempre foi assim.
Talvez seja cedo para afirmar. Mas o incômodo — ou o conforto — certamente não será o mesmo.


No fim, O Diabo Veste Prada 2 é um filme que vale a experiência do cinema — seja para assistir com amigos ou sozinho, e sair em silêncio, refletindo ou discutindo sobre os diversos insights e cutucões que o filme dá. Especialmente se você é do campo da comunicação.

E, se você chegou até aqui, obrigada.
Talvez esse texto seja longo demais para os tempos atuais. Talvez ele vire um carrossel no Instagram. Talvez ninguém leia até o fim. Mas se você chegou até aqui, obrigada! (Mas não se esqueça de fazer um stories sobre e marcar a gente no instagram, se não, não valeu de nada. – brinks)