Chegou a hora da mudança”. A faixa de abertura do disco dá o tom para Hour After Hour, novo álbum de Magon. O artista israelense – atualmente residente de Paris – é cantor, compositor, produziu e também fez o arranjo de todo o projeto. No estilo indie rock psicodélico, a obra é resultado de um ano movimentado em sua vida e segue o disco Out In The Dark, sua estreia solo. Além disso, a obra nos apresenta um pouco de sua mente e intimidade de uma forma bastante pessoal.

Após dez anos de trabalho na dupla Charlotte&Magon, o artista estreou na carreira solo em 2019. O álbum “Out In The Dark” rendeu boas críticas e um trabalho consistente de oito videoclipes incríveis. No entanto, Magon decidiu seguir uma direção mais psicodélica e experimental em seu novo disco. “Hour After Hour” é lançado hoje – apenas dois anos depois da estreia, mas com uma história bastante própria.

Portanto, para falar sobre o processo de gravação do novo álbum e tudo que rolou no último ano, Magon conversou com a Zimel em uma entrevista exclusiva. Confira!

Entrevista de Lançamento: Hour After Hour

Ano passado deve ter sido uma jornada, com a pandemia, a agitação política mundial, o processo de criação do álbum, lançamentos de singles e clipes e – parabéns – você acabou de ter uma filha! Como tem sido navegar entre todos esses diferentes processos na vida?

Muito obrigado! Eu me considero sortudo. Embora a resposta à pandemia tenha cancelado nossa turnê ibérica, a qual estávamos esperando ansiosamente, eu pessoalmente amo o estúdio tanto quanto amo me apresentar, então aproveitei esse tempo para finalizar meu segundo álbum. Mais que isso, minha namorada ficou grávida logo antes da pandemia chegar, então nós ficamos muito felizes e animados por estar em casa.

 

“Hour After Hour” (“hora após hora”, título do disco) evoca a ideia de uma ação contínua, algo em desenvolvimento. Seus vídeos mais recentes estão mais cinematográficos que nunca. O que está por trás dessa decisão de estilo para o ciclo do álbum?

Para o primeiro álbum, nós fizemos sete videoclipes que no geral remetiam a uma aparência “lo-fi” de fitas cassete. Quando nós escolhemos “Change” para ser o primeiro single e clipe do novo disco, pareceu evidente que também era hora de irmos em direção a um novo estilo que se encaixasse na canção. Eu sempre gostei da estética de filme, a questão era como conseguir essa aparência dentro de nosso orçamento. Quando resolvemos isso, não houve dúvidas de que era a escolha certa.

“não houve dúvidas de que era a escolha certa”

Ambos videoclipes trazem a ideia de um viajante aventureiro de alguma forma. Como essa ideia da viagem se conecta ao conceito do álbum?

Eu acredito que estar em turnê e na estrada durante o período de escrita do álbum, além de vários aspectos de minha vida terem mudado rapidamente, fez com que eu estivesse às vezes neste estado mental poético, como um viajante que documenta o que vê ou o que acontece a ele conforma se movimenta. É possível ouvir isso em algumas canções e acredito que o sentimento tenha transcendido naturalmente para os videoclipes conforme os fazíamos.

 

O primeiro ­– referente à faixa de abertura “Change” – mostra majoritariamente um único caminhante pelo deserto, uma locação bem solitária. Nós o vemos novamente em “Aerodynamic” junto à banda. A solidão e a simplicidade do primeiro vídeo se relacionam ao tema geral do disco? De que forma?

Talvez de uma maneira inconsciente! (risos) Este disco é de fato muito pessoal, talvez mais que o álbum de estreia, ou pelo menos mais revelador. No caso de muitas canções, a escrita e a gravação foram ao mesmo tempo uma forma de lidar com e superar sentimentos difíceis e dias solitários. Você pode dizer que o caminhante do vídeo é uma representação idílica e fantasmagórica de alguém que abraça completamente sua solidão.

minha namorada foi o melhor encontro que eu já tive”

O clipe de “Aerodynamic” nos apresenta um homem lagarto embarcando em um tipo mais transcendental de aventura ao som da poética canção. Que outros tipos de jornadas podemos esperar nas faixas que ainda não ouvimos do disco?

A próxima jornada que vamos apresentar será com nosso novo vídeo para a faixa-título “Hour After Hour”, lançado no mesmo dia do álbum. Ela reconta a história do meu primeiro encontro com minha namorada Alexa, que foi o melhor encontro que eu já tive e provavelmente terei na vida. Dessa vez, com imagens de grandes cidades, álcool, estações de metrô, colegas de quarto peidorreiros e colchões sujos. É um clipe em stop-motion feito por nossa amiga Mihaela Mîndru. Até agora eu só vi trechos e ele parece incrível pra c******!

O que foi mais diferente em trabalhar nesse álbum em relação ao primeiro, “Out in the Dark”?

Na questão técnica, eu gravei ambos discos de uma maneira muito similar: faixa a faixa no estúdio conforme eu as escrevia. Então talvez a maior diferença seja que, com esse álbum, eu estava ciente de “Out In The Dark”, e tanto consciente quanto inconscientemente eu me esforcei para não repetir o mesmo álbum e tentar experimentar, expandir o arranjo de estilos de escrita e produção do meu trabalho.

“[esse álbum] me permitiu atravessar novos estilos”

A musicalidade do novo disco parece mais aberta e experimental que antes. Como foi o processo de chegar a esse novo som?

A ideia inicial de uma canção e o resultado final são frequentemente bem diferentes no meu caso. Cada canção é um processo de descoberta. Eu pego o que pareça estar funcionando no momento que estou gravando e me desprendo rapidamente da visão inicial. Eu também acho que esse ser um segundo álbum foi algo que me permitiu atravessar novos estilos sem tentar demais manter um único gênero. Isso tem consequências que não são sempre benéficas para um álbum, mas acho que no caso de “Hour After Hour” eu de alguma forma me safei com isso.

 "Hour After Hour", Magon. Arte da Capa.

“Hour After Hour”, Magon. Arte da Capa. 

A pandemia de COVID-19, especificamente, é algo que tem mudado nossas vidas desde o ano passado. Você sentiu alguma influência disso em seu processo criativo de alguma forma?

Ir para o estúdio durante o primeiro lockdown foi bem complicado. Eu moro a uma hora de distância dele e era meio que ilegal, então eu tive que dormir lá por semanas inteiras para evitar o translado diário. Assim, isso me permitiu trabalhar de forma mais obsessiva na mixagem do disco, o que eu não tenho certeza se foi algo tão bom em retrospecto. Uma vez finalizado o disco, comecei a escrever novas canções, mas em vez de gravá-las imediatamente eu foquei apenas na escrita, para poder ficar em casa com minha namorada grávida. Isso acabou sendo ótimo. Acho que daqui para frente eu vou passar a separar a escrita da gravação nos álbuns futuros, ou pelo menos em alguns próximos.

Novo Normal?

O que você acha que pode haver de reflexo duradouro desse período de tempo no mundo e na indústria da música?

Honestamente, por mais que a pandemia nesse ponto pareça ter um grande efeito nessa indústria como em muitas outras e em outros aspectos da vida, e por mais que esteja sendo atualmente muito incapacitante para vários artistas, casas de show¸ técnicos, empresários etc… Eu acho que assim que as restrições forem eliminadas as pessoas vão esquecer sobre bastante rápido e as coisas vão voltar ao mesmo modo que era antes.