Após quase vinte anos desde a primeira — e, até então, única — passagem pelo Brasil, My Chemical Romance retornou aos palcos das terras tupiniquins em 5 e 6 de fevereiro, escolhendo o Allianz Parque, em São Paulo (SP), como palco para a realização de sua nova turnê mundial, “The Black Parade 2026”. A gira rememora o sucesso de seu icônico álbum lançado há duas décadas, The Black Parade, considerado por muitos fãs e especialistas um marco que revolucionou a forma de apreciar e produzir rock nos anos 2000.
Não só de camisetas pretas e coturnos pesados se constituiu a indumentária dos fãs da banda, afetuosamente apelidada de “My Chem” ou “MCR”. Alguns cosplays de personagens conhecidos pelo público — como a mulher presente na capa do segundo álbum de estúdio, Three Cheers for Sweet Revenge (2004), e “Helena”, que nomeia um dos singles de maior notoriedade do grupo — puderam ser vistos transitando pelas imediações do estádio. Gerard Way, vocalista, também inspirou a vestimenta de muitos presentes, que lhe prestaram homenagem com gravatas vermelhas.
Antes de dar início ao espetáculo, o My Chem contou com a animada abertura dos suecos do The Hives, banda de garage punk que já esteve no Brasil em outras oportunidades. Pelle Almqvist cativou os presentes e desempenhou com maestria o papel geralmente associado a uma banda de abertura: aquecer o público e gerir, de modo inteligente, o intervalo entre a montagem do palco e a preparação da atração principal — no caso, o MCR. “Hate to Say I Told You So”, “Tick Tick Boom” e “Walk Idiot Walk” estiveram entre os sucessos executados, com um repertório que atravessou diferentes fases da discografia do grupo.

My Chemical Romance | by @anendfor
Às 20h50 — dez minutos antes do esperado pelos fãs —, os norte-americanos de New Jersey, liderados por Gerard Way, iniciaram o show com “The End.” Não é coincidência a banda ter aberto a apresentação com a primeira faixa de The Black Parade. Sendo esta uma turnê cuja proposta é evocar a atmosfera do álbum, fazia sentido executá-lo na íntegra e respeitar sua tracklist original. E isso veio acompanhado de vestígios claros da dimensão de “ópera rock” que atravessa o disco: o público foi envolvido por uma ambientação coerente com sua narrativa, não apenas pela veiculação de teasers com personagens fictícios (como o “Grande Ditador Imortal”), mas, sobretudo, pela aura enigmática construída por cenografia e figurinos soturnos.
Embora o grupo tenha mantido constância ao longo do show, alguns pontos altos conduziram os fãs ao delírio e ao deleite: as notas iniciais de “Welcome to the Black Parade”, o clamor emocional de “I Don’t Love You”, a melancólica balada “Cancer” e a participação de uma cantora de ópera, que reforçou a lembrança da colaboração de Liza Minnelli em “Mama”. Referências aos videoclipes dessa era também estiveram presentes durante a performance, como em “Teenagers”, com atmosfera juvenil marcada por cores vibrantes, em contraste com os tons sóbrios sustentados pela banda, e em “Famous Last Words”, ao longo da qual uma sequência de efeitos pirotécnicos ampliou o impacto da canção.

My Chemical Romance | by @anendfor
Encerrada a narrativa de The Black Parade, o grupo fez uma breve pausa e, minutos depois, retornou ao palco para apresentar outras faixas que marcaram sua trajetória de aproximadamente vinte e cinco anos — mesmo considerando o hiato ocorrido entre 2013 e 2019. Assim, Gerard Way (vocais), Ray Toro (guitarra principal), Frank Iero (guitarra rítmica), Mikey Way (baixo), Jarrod Alexander (bateria e percussão) e Jamie Muhoberac (teclados) conduziram uma viagem no tempo com hits como “Helena” e “I’m Not Okay (I Promise)”, de Three Cheers for Sweet Revenge (2004), além de “Na Na Na” e “Planetary (GO!)”, do álbum Danger Days: The True Lives of the Fabulous Killjoys (2010). Vale ainda mencionar a b-side “Bury Me in Black” e a faixa “Our Lady of Sorrows”, presente na tracklist do álbum de estreia I Brought You My Bullets, You Brought Me Your Love (2002), a partir do qual a ideia de “álbuns conceituais” — recorrente na discografia da banda — começou a se delinear, como se nota na perspectiva artística dos trabalhos posteriores. “The Foundations of Decay” encerrou a apresentação do MCR, incentivando os fãs a acionarem as lanternas de seus celulares como gesto de carinho pela volta da banda ao Brasil.
A proposta do My Chemical Romance para a atual turnê transcende uma simples celebração nostálgica de um álbum lançado há vinte anos. Intuitivamente ou não, a banda reforça seu poder no nicho do emo/rock alternativo e, ao mesmo tempo, expande o conceito de The Black Parade, ressignificando-o por meio de leituras distópicas e teatrais — capazes de acolher antigas e novas gerações de admiradores. Diante do espetáculo realizado na Terra da Garoa, fica apenas um pedido, em tom de protesto, para encerrar esta resenha: “Long live the Black Parade!”
A banda se apresentou em São Paulo em 5 e 6 de fevereiro e, no momento, dá continuidade à turnê mundial, ainda em passagem pela América Latina.
TEXTO DE JENNIFER CELESTE especial para ZIMEL
MY CHEMICAL ROMANCE
“THE BLACK PARADE 2026” — SOUTH AMERICAN TOUR
6 de fevereiro — Allianz Parque (São Paulo, SP)
SETLIST — THE HIVES
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“Enough Is Enough”
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“Walk Idiot Walk”
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“Rigor Mortis Radio”
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“Paint a Picture”
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“Bogus Operandi”
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“Hate to Say I Told You So”
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“Countdown to Shutdown”
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“Legalize Living”
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“Come On!”
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“Tick Tick Boom”
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“The Hives Forever Forever The Hives”
SETLIST — MY CHEMICAL ROMANCE
SET 1 — The Black Parade (execução na íntegra)
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“The End.”
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“Dead!”
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“This Is How I Disappear”
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“The Sharpest Lives”
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“Welcome to the Black Parade”
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“I Don’t Love You”
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“House of Wolves”
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“Cancer”
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“Mama” (com participação de Charlotte Kelso, em referência à colaboração original com Liza Minnelli)
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“Sleep”
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“Teenagers”
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“Disenchanted”
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“Famous Last Words”
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“Blood”
SET 2 — My Chemical Romance (encore)
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“Our Lady of Sorrows”
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“Bury Me in Black”
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“Na Na Na (Na Na Na Na Na Na Na Na Na)”
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“SING”
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“Helena”
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“Planetary (GO!)”
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“To the End”
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“DESTROYA”
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“I’m Not Okay (I Promise)”
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“The Foundations of Decay”
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