Negra Li estreou no Lollapalooza Brasil nesta sexta-feira, abrindo a tarde do Palco Budweiser no primeiro dia do festival, em Interlagos. E havia algo de simbólico nesse encontro tardio: depois de 30 anos de carreira, a artista da Brasilândia, na zona norte de São Paulo, chegou ao Lolla não como aposta, mas como nome já consolidado, desses que entram em festival grande para lembrar ao público de onde muita coisa começou. A fase atual ajuda a explicar esse peso: O Silêncio Que Grita, lançado em 2025, recoloca seu discurso no centro, com um repertório que volta a encostar o rap, o R&B e a música preta em temas de resistência, afeto e afirmação.

Pelo que se viu no palco — e também pelo relato que embasa esta nota — o show soube fazer muito bem aquilo que apresentação de festival exige: condensar trajetória sem parecer apressada. Negra Li já havia dito em entrevista que daria ênfase ao disco novo, sem abrir mão de um pot-pourri de sucessos, e que preparava uma performance diferenciada com dançarinos; o resultado, ao que tudo indica, foi exatamente esse equilíbrio entre repertório, presença cênica e comunicação direta com a plateia. Até parte do público que já guardava lugar para Sabrina Carpenter parece ter comprado a viagem: não por acaso, a grade do Budweiser já estava tomada desde cedo por fãs da headliner, que acompanhariam também os shows anteriores no palco. Faixas recentes como “Fake” e “Direito de Amar” ajudaram a mostrar que a conexão de Negra Li com o público não depende de nostalgia para funcionar.

Os momentos mais fortes vieram quando o show deixou de ser apenas show e virou cena de memória. Glória Groove apareceu para dividir “Retrovisor”, parceria do disco de 2025, e ainda agradeceu no palco pela oportunidade de cantar com uma artista que admirava desde criança. Depois, Negra Li chamou os filhos, Sofia Kyman e Noah Malik, para uma participação que rapidamente entrou na galeria dos instantes mais emocionantes deste começo de Lolla. É esse tipo de gesto que muda a temperatura de uma apresentação: de repente, um slot de meio de tarde deixa de ser “aquecimento” e passa a ser declaração de permanência. Negra Li não apenas estreou no festival; ela ocupou o espaço com a segurança de quem sabe que legado também se constrói ao vivo, diante de uma plateia misturada, curiosa e, no fim das contas, rendida.

FOTOS de MARCELLO FIM para o ZIMEL