Duda Beat disponibilizou na terça-feira (27) seu novo disco, Te Amo Lá Fora, três anos após sua estreia com Sinto Muito. Seguindo a parceria com os produtores Lux & Tróia, o álbum traz uma nova perspectiva da artista sobre o amor, além de nova estética. A essência romântica e sonoridade única que conquistaram os fãs seguem presentes, porém de forma mais madura.

 

“Te Amo Lá Fora”, de Duda Beat: Faixa a faixa

Depois da aclamação do Sinto Muito, naturalmente criou-se uma expectativa grande sobre seu sucessor. A demora de três anos pareceu longa, mas o tempo entre um lançamento e outro foi bem investido e coberto por parcerias. De Tiago Iorc a AnaVitória, de Rashid a Nando Reis, a amálgama de estilos nesse período certamente foi algo decisivo para a cantora. Afinal, dessa forma, mesmo com tão pouco tempo de estrada ela pôde desenvolver seu nome, sua arte e sua identidade. A primeira audição de Te Amo Lá Fora já mostra como valeu a pena esperar que o trabalho tivesse seu devido tempo de lapidação.

Enquanto o primeiro disco iniciava com uma etérea faixa instrumental, a abertura do novo álbum fica por conta de Cila do Coco, que apresenta a parceria Tu e Eu em forma de sample. A mudança no discurso já é visível; a faixa narra a superação de uma desilusão amorosa, mas de uma forma bem menos sofrida do que estamos acostumados.

“Vou chorar, vou me acabar / Vou dançar e tu pode me olhar / Vai com ela pra lá / Vou passar…”

A inclusão de Cila do Coco é uma saudação devida a um ícone da música pernambucana e encaixa perfeitamente. As influências musicais de Duda Beat sempre estiveram presentes em seu trabalho, criando um estilo muito especial de pop que, nesse caso, são misturados com coco de roda e maracatu. Duda pede licença e Cila abençoa.

 

Na veia eclética, a cantora flerta com a pisadinha em “Meu Pisêro”, ritmo que tem encantado o Brasil. É claro que tudo segue com a identidade da cantora e uma gostosa teatralidade: A faixa começa tranquila, até que o refrão soa como uma sirene, dando ênfase emocional a “esse amor que acabou comigo de vez”. Daí para frente, entre sanfonas e beats, a letra lamenta o amor perdido, mas dessa vez, decide que está “tudo perdoado” no final.

“Eu fiquei aos pedaços / Mas tu não é culpado de não me amar assim”.

“Meu Pisêro” foi o primeiro single do disco e já ganhou até clipe, dirigido por Cris Streciwick. Além disso, a canção também já havia sido apresentada ao público de forma acústica em uma transmissão de Dia dos Namorados ano passado. Mesmo assim, não foi a primeira canção do álbum a ver a luz do dia.

A cantora apresentou “Mais Ninguém” , voz e violão, através de uma live no Instagram em março de 2020. Criada em um momento bem inicial da produção do disco, é uma daquelas canções românticas bem dramáticas, para ninguém botar defeito. Poderia até ser um momento melancólico, mas o arranjo mantém uma energia que chega a ser dançante.

 “Eu só queria te ter / E se não for você, não quero mais ninguém”.

Um dos pontos de destaque do álbum é a quarta música, “Nem um Pouquinho”, parceria com o rapper baiano Trevo. Traz elementos de trap, elementos de pagodão baiano com um toque de M.I.A. É uma daquelas misturas que, no momento, poucos artistas conseguiriam trazer com a maestria e naturalidade da dobradinha Duda Beat e Lux & Tróia, e a participação de Trevo cabe como uma luva.

Cabe a observação que, em relação à dupla de produtores, o processo agora foi diferente. O primeiro disco começou a ser produzido apenas por Tomás Tróia e só depois recebeu o acréscimo do amigo Lux Ferreira. No entanto, dessa vez a dupla pegou a produção desde o início. O resultado mais direto é uma maturidade na estrutura das canções que permite quebras sem perder a coesão, como na transição para primeiro refrão aqui.

“A gente falava tudo / Era tudo junto / Quando eu vi eu fui piada / Você ria e eu chorava”.

 

Na live pré-lançamento, Tomás recomendou que os fãs ouvissem o trabalho com fones de ouvido ou uma boa caixa de som. A observação é bastante válida – a riqueza de detalhes dos instrumentais merece ser apreciada com atenção. E “Melô de Ilusão” é uma das faixas em que esse aspecto mais se destaca. Temos sintetizadores “estilo anos 80”, temos backing vocals (maravilhosamente executados por Camila e Luiza de Alexandre ao longo do álbum), temos uma série de elementos que dão um ar de suspense muito relacionado à letra, que aborda as inseguranças e as preocupações que às vezes entram no caminho dos relacionamentos. Tudo isso é bem amarradinho, com um resultado bem especial.

“Eu vou entrar nessa história com você / Mas não deixa eu me perder de mim não”.

 

Com produção adicional de Pedro Starling, “GAME” remete bastante ao primeiro álbum por dois motivos: Primeiro, o ritmo chama um pouco de hip-hop para si, na batida e no flow. Em segundo lugar, a letra é possivelmente a mais dolorosa do álbum:

“Eu contei todo dia que ele foi embora / Me perguntei por que o amor não conquista o amor”.

Mesmo com a familiaridade, a música tem um lado diferente, tanto na letra quanto na performance vocal. Há um pouco do rancor de “Pro Mundo Ouvir”, porém ele é mais direto e resignado, mais realista e menos romantizado.

Duda Beat / Foto: Gabriela Schmdt

Duda Beat / Foto: Gabriela Schmdt

Enquanto isso, “50 Meninas” pega um toque de reggae que já existia em “Bolo de Rolo” e leva a um patamar acima. A música também tem uma mudança brusca e deliciosa de estilo logo no início. Patrick Laplan assina a coprodução da sequência que continua com as duas faixas seguintes. Assim como em “Mais Ninguém” e “Decisão de Te Amar”, Marlon Sette e Diogo Gomes nos agraciam com seus metais. Essa é para cantar bem alto.

“Não é difícil de entender não / Que eu era só mais uma opção / E hoje eu não quero mais você não”.

Puxando a reta final do álbum, “Decisão de Te Amar” é outro ponto alto e tem a melhor linha de grave do disco (palpite arriscado e inteiramente pessoal). A faixa é uma declaração para o companheiro Tomás, o que adiciona uma dose de fofura extra. A música faz referências diretas ao “Sinto Muito”: na letra com o verso “que ao meu lado era o seu lugar” (“Pro Mundo Ouvir”) e no instrumental (com elementos que remetem a “Anicca” e “Parece Pouco”). É a mais alegre e otimista até agora do álbum e uma das mais bonitinhas da carreira.

“Quando você chega fico boba fico rindo / Às vezes paro e penso juro eu não acredito não / Que eu te dei meu coração”.

O curto interlúdio a seguir fecha a sequência reggae com um título impronunciável formado por um kaomoji, espécie de emoji japonês: “≈(ω)”. É mais ou menos com essa cara que você está a essa altura do álbum.

Meu Coração” traz a cantora de uma forma que ainda não conhecíamos, acompanhada de um instrumental mais orquestrado, cheio de sentimento. O arranjo de cordas de Felipe Pacheco Ventura é simplesmente emocionante, e a faixa destaca os vocais de Duda Beat, que se apresenta aqui sem backing vocals. Tudo isso ajuda no impacto da música, enquanto a artista canta sobre arrependimento e a busca por uma segunda chance.

“Se você voltar só do seu lado vou ficar / É de chorar pensar em ser só seu amigo”.

 

Por último, “Tocar Você” levanta os ânimos para fechar com chave de ouro. A faixa tem uma pegada house retrô, inédita na carreira da cantora até agora, mas que funciona bem demais. Também até um quê de “Chromatica”, da norte-americana Lady Gaga. Duda Beat afirmou em live que esteve viciada no álbum, que pode ter servido como referência aqui. Junto à batida, ela supera uma relação que não deu certo, abraçando a responsabilidade sobre seus sentimentos.

“O meu amor ficou comigo / Nosso amor ficou só comigo”.

“Te Amo Lá Fora”: O amadurecimento de Duda Beat

Com pouco menos de quarenta minutos, o disco cumpre seus objetivos enquanto segundo-álbum com louvor. Ele carrega adiante o legado de “Sinto Muito” em um momento onde a carreira de Duda está mais focada e material que antes. A identidade permanece fincada nos dois pilares que destacam a cantora com tanto vigor. Por um lado, o instrumental ousa, não se propõe a ser parecido com algo que porventura esteja tocando nas rádios. Em vez disso, é um show de personalidade própria com inspirações nacionais e internacionais muito bem amarradas, resultando em um trabalho de caráter único.

Por outro, a própria artista: Duda Beat é uma cantora única, versátil, que escreve letras muito sensíveis e que geram identificação para quem ouve. Ela tem a capacidade de dividir com o mundo suas experiências em forma de arte de uma maneira muito doce, concreta, palpável. É uma personagem que derrama seu coração e seus sentimentos da forma como são, não as expectativas de como deveriam ser.

A recifense já definiu esse como um disco para chorar dançando e dançar chorando. Entre as letras que falam das tristezas e das delícias de um amor real e as batidas que mexem com o corpo e nos levam a viajar entre estilos, o álbum tem o pé no chão e a cabeça nas nuvens. E é entre o céu e a terra que a mágica acontece.