O compositor, arranjador e multi-instrumentista Hermeto Pascoal morreu aos 89 anos, no sábado, 13 de setembro de 2025, no Rio de Janeiro. A informação foi confirmada pela família nas redes sociais e por veículos internacionais; mensagens de tributo de músicos e autoridades repercutiram a notícia. Segundo nota do Hospital Samaritano Barra, Hermeto morreu às 20h22, em decorrência de falência múltipla dos órgãos.
Reconhecido mundialmente pela inventividade — “o feiticeiro dos sons” que transformava chaleiras, brinquedos, chifres de boi e até porquinhos em instrumento musical — Hermeto atravessou seis décadas de atividade, colaborou com Miles Davis e ampliou os horizontes da música instrumental brasileira. Em sua despedida, choveram homenagens destacando sua criatividade incansável e o alcance internacional da obra.
Quem foi Hermeto Pascoal e por que sua obra é única
Nascido em Lagoa da Canoa (AL), em 1936, Hermeto começou na sanfona do pai, migrou para piano, flautas, sopros e o que mais emitisse som. Recusou rótulos: falava em “música universal”, uma síntese livre entre choro, samba, forró, jazz e experimentação radical — com espaço para risos, falas, ruídos da natureza e a própria respiração. Sua projeção internacional se consolidou nos anos 1970, em gravações com Airto Moreira e participações em “Live-Evil” (1971), de Miles Davis. Hermeto seguiu ativo até os 80 e tantos anos, lançando discos, liderando grupos e inspirando novas gerações.
Hermeto em discos: um guia essencial para entender o “Bruxo”
A seguir, um panorama de álbuns-chave para entrar no universo de Hermeto — registros que ajudam a perceber sua linguagem rítmica, a liberdade harmônica e o humor sonoro característicos.
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“Missa dos Escravos / Slaves Mass” (1977) – Clássico absoluto: coro vocal, percussões insólitas, sopros em polirritmia e um senso ritual que é puro Hermeto. Porta de entrada indispensável.
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“Zabumbê-Bum-Á” (1979) – O Nordeste encontra a big band imaginária de Hermeto: baiões viram laboratório de timbres e improvisos.
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“Ao Vivo – Montreux Jazz” (1979) – Energia de palco em alta voltagem, com a banda em estado de invenção permanente no festival suíço.
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“Cérebro Magnético” (1980) – Estúdio como máquina de descobertas: texturas de teclas, metais e uma escrita rítmica inconfundível.
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“Hermeto Pascoal e Grupo – 1982” (1982) – Consolidação da linguagem coletiva: temas que se abrem para improviso e dramaturgia sonora.
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“Lagoa da Canoa, Município de Arapiraca” (1984) – Retorno afetivo às origens alagoanas; melodias luminosas e arranjos que respiram Brasil.
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“Só Não Toca Quem Não Quer” (1987) – Manifesto pedagógico-poético: qualquer som pode virar música nas mãos (e na escuta) certas.
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“Festa dos Deuses” (1992) – Hermeto em modo camerístico, com lirismo e exuberância tímbrica.
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“Mundo Verde Esperança” (2002) – Orquestrações expansivas e ecologia sonora; obra tardia já clássica.
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“No Mundo dos Sons” (2017) – Síntese madura do vocabulário harmônico-rítmico, com grupo afiadíssimo.
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“Hermeto Pascoal e Sua Visão Original do Forró” (gravado em 1999; lançado em 2018) – O forró filtrado pela lente hermetiana: dançante e experimental.
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“Pra Você, Ilza” (2024) – Tributo íntimo à esposa; emoção e delicadeza em arranjos de camerística popular.
Para quem começa agora, críticos costumam apontar “Slaves Mass (1977)”, “Lagoa da Canoa, Município de Arapiraca (1984)” e “Mundo Verde Esperança (2002)” como um trio de iniciação — um arco que cobre experimentação, raízes e fase orquestral.
Legado imediato
A morte de Hermeto mobilizou músicos brasileiros e estrangeiros, que ressaltaram sua “alquimia sonora” e o papel de mestre generoso para novas gerações. Sua discografia vasta e diversa (que inclui gravações históricas, obras inéditas e lançamentos recentes) sustenta o status de patrimônio cultural — um artista que fez da curiosidade uma ética e da escuta, uma forma de mundo.
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