Começou com uma mensagem de WhatsApp. “Chega aí, estamos no estúdio.” Era Lisboa, 2023, e Criolo estava na cidade trabalhando com Dino D’Santiago quando o pianista pernambucano Amaro Freitas, apresentado ao rapper por Milton Nascimento, apareceu por acaso numa sessão. Daquele encontro improvável nasceu “Esperança” — e do que parecia um momento único nasceu um álbum inteiro. No dia 13 de junho de 2026, o trio sobe ao palco do Primavera Sound Porto para apresentar ao vivo o projeto Criolo, Amaro & Dino, lançado em janeiro deste ano e que já se impõe como um dos discos mais importantes da música lusófona contemporânea.
Três trajetórias, um idioma novo
Para entender a dimensão do que acontece no Primavera Sound Porto neste junho, é preciso entender quem são esses três artistas e o que cada um carrega até o palco do Parque da Cidade.
Criolo — nascido Kleber Gomes, em São Paulo — é hoje uma das vozes mais importantes da cultura urbana brasileira. Com mais de três décadas de trajetória e discos como Nó na Orelha (2011) no currículo, construiu uma obra que transita com liberdade entre o rap, o samba, a MPB e a música de raiz, sempre com letras que tocam no concreto das ruas sem abrir mão da poesia.
Amaro Freitas, pianista pernambucano, é uma das personalidades mais inovadoras do jazz contemporâneo. Sua abordagem percussiva ao piano — profundamente enraizada nas matrizes rítmicas do Nordeste brasileiro — redesenha espaços sonoros e redefiniu os limites do jazz brasileiro para o mundo.
Dino D’Santiago, por sua vez, é figura central da música afro-portuguesa. Filho da diáspora cabo-verdiana em Portugal, construiu uma sonoridade única que cruza referências das ilhas — a morna, o funaná, o batuku — com o soul, o hip-hop e a música urbana europeia. Foi ele quem, em 2023, declarou publicamente sua admiração por Nó na Orelha, emocionando Criolo e abrindo a porta para o encontro que viria.
Um disco que não nasceu de um plano
Criolo, Amaro & Dino é um desses discos raros que não nasceu de uma estratégia de carreira, mas de um impulso. As 12 faixas foram construídas ao longo de sessões de estúdio entre Rio de Janeiro, Recife, São Paulo e Lisboa, com a maioria das composições assinadas coletivamente pelos três.
O álbum dissolve fronteiras entre rap, MPB, jazz, morna e funaná para criar uma linguagem própria — profundamente enraizada nas tradições afro-atlânticas e, ao mesmo tempo, radicalmente contemporânea. É um exercício que trata a língua portuguesa não como herança de um único país, mas como território partilhado de múltiplas memórias e futuros possíveis.
O embrião foi “Esperança”, composta a quatro mãos por Criolo e Dino e expandida com Amaro. A canção ganhou vida própria e foi indicada ao Grammy Latino 2024 na categoria de Melhor Canção em Língua Portuguesa. Em vez de encerrar a história, abriu caminho para um álbum inteiro — construído a partir da escuta, da confiança e do risco.
Por que Dino D’Santiago importa para essa história
A participação de Dino D’Santiago não é um detalhe de produção. É o eixo que dá ao projeto sua dimensão política e cultural mais profunda.
Dino é português, filho de imigrantes cabo-verdianos, criado num Portugal que frequentemente tratou a diáspora africana como margem. Sua música reposiciona Cabo Verde — e, por extensão, toda a África lusófona — como eixo criativo, e não como apêndice de uma lusofonia centrada em Lisboa. No disco, ele oferece espiritualidade e pertencimento, e seus vocais funcionam como uma bússola que orienta o trio para as águas do Atlântico Negro.
Para o público brasileiro — que muitas vezes conhece Portugal pela história colonial ou pelo futebol —, ouvir Dino ao lado de Criolo e Amaro é entender que a lusofonia tem muitos centros, e que um deles está nas ilhas de Cabo Verde, nas ruas da Cova da Moura em Lisboa, e no Nordeste brasileiro.
O Primavera Sound como palco político
O Primavera Sound Porto não é qualquer festival. Realizado no Parque da Cidade entre os dias 11 e 14 de junho, é um dos eventos musicais mais curatorialmente exigentes da Europa, com um cartaz que este ano reúne nomes como Massive Attack, Big Thief, Gorillaz, IDLES e Peggy Gou.
Que Criolo, Amaro & Dino esteja no cartaz ao lado desses nomes é, por si só, um sinal. O próprio festival os apresentou como representantes do “afro-jazz” — uma categorização imperfeita, mas que indica o reconhecimento europeu de uma sonoridade que vem dos dois lados do Atlântico.
A apresentação do dia 13 de junho será a chegada ao palco português de um disco que foi construído, em parte, na própria cidade. É o fechamento de um ciclo e a abertura de outro — o momento em que uma colaboração nascida numa sessão improvisada em Lisboa volta ao país que a viu nascer, desta vez diante de um público internacional.
Uma ponte que a música fez
O encontro de Criolo, Amaro e Dino diz algo sobre o que a música pode fazer quando as políticas culturais ainda engatinham. Enquanto as agendas institucionais entre Brasil e Portugal se movem lentamente, um rapper paulistano, um pianista pernambucano e um cantor cabo-verdiano criado em Lisboa construíram — a partir de um WhatsApp e de horas de estúdio — um dos argumentos mais convincentes para a ideia de que a lusofonia pode ser um projeto vivo, plural e criativo.
Não é saudosismo. É presente.
No dia 13 de junho, no Porto, vale estar lá.
O Primavera Sound Porto 2026 acontece de 11 a 14 de junho no Parque da Cidade, Porto. Ingressos disponíveis no site oficial do festival.
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