A chuva que caiu sobre a Cidade do Rock no fim da tarde deste sábado (5) poderia ter transformado o gramado diante do Palco Sunset em território de dispersão. Aconteceu o contrário. Com Black Pantera e Nervosa, o Rock in Rio 2026 encontrou ali um dos momentos em que o peso das guitarras significou algo além do volume.
Não era exatamente um encontro pensado para suavizar arestas. De um lado, o trio mineiro que fez do hardcore, do metal e do discurso antirracista partes inseparáveis de sua identidade. Do outro, uma banda que há mais de 15 anos carrega o thrash metal brasileiro por palcos internacionais e fez da presença feminina dentro de um universo historicamente masculino parte de sua própria trajetória. O festival havia apresentado previamente a parceria justamente a partir dessa convergência entre resistência, posicionamento e circulação internacional.
Às 17h50, o Black Pantera entrou no Sunset para sua terceira participação no Rock in Rio. Desta vez, porém, havia uma diferença importante: a banda chegava menos como uma descoberta que precisava se apresentar e mais como um nome capaz de reivindicar seu espaço dentro da música pesada brasileira. Depois das passagens pelo festival e de uma carreira construída principalmente na estrada, era outro o tamanho simbólico daquele palco.
Black Pantera leva “Continental” ao Rock in Rio
O começo deixou pouco espaço para preparação. Luzes vermelhas, sirenes e “Hórus”, faixa do recém-lançado Continental, colocaram imediatamente o show em marcha. Na sequência vieram “Padrão É o Caralho” e “Obsoleto”, enquanto as primeiras rodas se abriam no gramado. Quando chegou “Fogo nos Racistas”, uma das músicas que se tornaram cartão de visitas do grupo, o público já havia entendido a dinâmica proposta: aquilo não seria um concerto para observação passiva.
É justamente aí que o Black Pantera parece ter encontrado sua melhor forma nos grandes festivais. Charles Gama, Chaene da Gama e Rodrigo “Pancho” Augusto sabem ocupar um palco enorme sem transformar a apresentação em uma versão domesticada do underground que os formou.
As rodas, os riffs secos e a urgência do hardcore permanecem. Mas há, ao mesmo tempo, uma consciência cada vez maior de espetáculo.
O lançamento de Continental, em 21 de agosto, tornou essa passagem pelo Rock in Rio também uma espécie de apresentação pública da nova fase do trio. O quinto álbum de estúdio traz participações de Duquesa, Sandra Sá e Derrick Green, vocalista do Sepultura, e amplia uma mistura na qual guitarras pesadas convivem com referências negras, latino-americanas, soul e rap.
No Sunset, essa expansão não significou abandonar a contundência. Significou dar mais camadas a ela.
“Fogo nos Racistas” vira grito coletivo no Palco Sunset
Poucas músicas resumem tão bem essa relação entre palco e plateia quanto “Fogo nos Racistas”.
Com as rodas punk se multiplicando diante do Sunset, Charles Gama chamou o público para dentro da música. Não como figura de linguagem: fisicamente para dentro dela.
O que faz diferença no Black Pantera é que o discurso não aparece como intervalo entre duas canções. Ele está na matéria-prima das próprias músicas. Racismo, ancestralidade, desigualdade social e identidade não funcionam como acessórios discursivos adicionados ao espetáculo porque há dezenas de milhares de pessoas olhando. São assuntos presentes na obra da banda muito antes de os grandes festivais abrirem seus portões para ela.
Em “Tradução”, Charles aproveitou para defender o fim da escala 6×1 e dedicou o momento à mãe, que estava na plateia. Em outra direção, mas dentro da mesma lógica de aproximação entre música e experiência concreta, o show transformava reivindicação política e história pessoal em parte do repertório.
Isso poderia resultar em uma apresentação excessivamente discursiva nas mãos de outra banda. Aqui, o volume impede qualquer solenidade.
Primeiro vem o riff.
Depois, se for possível separar uma coisa da outra, vem a mensagem.
Nervosa entra em cena e o encontro finalmente começa
A entrada de Prika Amaral, vocalista e guitarrista da Nervosa, em “Serotonina” alterou o eixo do espetáculo. Até aquele momento, assistíamos essencialmente a um show do Black Pantera que preparava terreno para suas convidadas. Dali em diante, a ideia de encontro começou de fato a aparecer.
A Nervosa ganhou espaço próprio e despejou seu thrash no Sunset com músicas como “Ghost Notes”, “Slave Machine” e “Endless Ambition”. Nesta última, Charles Gama voltou à equação reforçando o vocal. O movimento era interessante justamente porque evitava uma armadilha comum dos shows de festival construídos em torno de convidados: ninguém estava ali para fornecer uma participação protocolar de três minutos.
O palco mudava de mãos.
E voltava.
Antes do show, o próprio Black Pantera já havia antecipado à Billboard Brasil que a ideia era justamente essa: tocar músicas da Nervosa, abrir espaço para um momento exclusivo da banda e depois fazer as duas formações se cruzarem. Havia uma relação anterior — os grupos já haviam dividido uma noite no Circo Voador, no Rio — e essa familiaridade ajudou a evitar a aparência de colaboração montada artificialmente para cumprir a lógica dos “encontros exclusivos” de festival.
Uma roda punk só de mulheres
Foi nesse trecho que surgiu também uma das imagens mais significativas da apresentação.
Do palco veio o pedido para que fosse aberta uma roda punk formada apenas por mulheres. O espaço apareceu no meio da plateia.
Num gênero que passou boa parte de sua história vendendo masculinidade como sinônimo de peso, a cena dizia bastante sem precisar interromper o show para explicar o que estava acontecendo.
Black Pantera e Nervosa chegavam àquele palco por trajetórias diferentes, mas encontravam um ponto comum na disputa por espaços tradicionalmente ocupados por outros corpos.
A escolha da Nervosa para o encontro não ocorreu por acaso. Antes do festival, Chaene da Gama já havia relacionado explicitamente as pautas das duas bandas: de um lado, o histórico posicionamento feminista da Nervosa; do outro, o caráter antirracista do Black Pantera.
No Sunset, essa conversa saiu da entrevista e ganhou forma física no gramado.
De Black Pantera e Nervosa a Rita Lee
Se peso e contestação foram os fios condutores da tarde, Rita Lee apareceu como uma espécie de território comum.
As duas bandas se reuniram para tocar “Obrigado Não”, lançada originalmente por Rita nos anos 1990. O encaixe fazia sentido: poucas figuras da música brasileira souberam transformar ironia, comportamento e confronto às convenções em linguagem pop com tanta eficiência.
Nas mãos de Black Pantera e Nervosa, a música perdeu qualquer verniz e ganhou músculos de metal.
“Viva Rita”, gritou Charles.
A homenagem também ajudou a colocar aquele show dentro de uma história brasileira mais ampla. Porque, apesar das referências internacionais inevitáveis de duas bandas de metal, havia pouco interesse ali em reproduzir modelos estrangeiros.
Até mesmo quando o som era thrash, crossover ou hardcore, o repertório insistia em apontar para o lugar de onde aquelas bandas vieram.
O metal brasileiro não pediu licença
O encontro terminou deixando uma impressão difícil de ignorar: Black Pantera e Nervosa não chegaram ao Rock in Rio para cumprir uma cota brasileira em um dia dominado pelo metal internacional.
Chegaram porque pertencem àquela escala de palco.
O sábado tinha Sepultura, Bring Me The Horizon, Avenged Sevenfold, Poppy e Bad Omens espalhados entre Mundo e Sunset. Nesse contexto, seria relativamente fácil para uma atração brasileira do fim da tarde funcionar apenas como preparação para o restante da programação. Não aconteceu.
Havia chuva. Havia rodas punk. Havia uma banda negra dizendo frontalmente o que pensa sobre racismo diante de um dos maiores públicos que o rock pode oferecer no país. Havia uma banda de mulheres comandando uma roda feminina dentro de um festival de metal. Havia Rita Lee atravessando tudo isso.
E havia, sobretudo, dois nomes brasileiros que não pareciam interessados em demonstrar que conseguem tocar no mesmo palco das atrações estrangeiras.
Essa discussão já ficou pequena.
No Sunset, Black Pantera e Nervosa simplesmente tocaram como quem sabe que aquele espaço também lhes pertence.
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