Abrir o Palco Mundo não é exatamente uma tarefa confortável. Às 16h40, enquanto boa parte do público ainda atravessava os portões, descobria os caminhos da Cidade do Rock ou procurava uma sombra para escapar do calor desta sexta-feira (4), coube à Nova Twins a missão de colocar o Rock in Rio 2026 oficialmente em movimento.
E talvez uma banda pouco interessada em zonas de conforto fosse mesmo uma escolha adequada para começar.
Amy Love, na guitarra e nos vocais, e Georgia South, no baixo, chegaram ao Rio de Janeiro para sua primeira apresentação no Brasil levando ao maior palco do festival um rock que há tempos deixou de pedir licença às fronteiras tradicionais do gênero. Punk, metal, grime, hip-hop, eletrônica e graves que parecem empurrar o som fisicamente para a frente convivem na música das duas sem muita preocupação com a etiqueta que será colocada depois.
A plateia ainda estava longe do volume que o Palco Mundo deve alcançar ao longo da noite. A abertura do festival aconteceu diante de um público reduzido e sob o forte calor da tarde carioca, cenário bastante diferente daquele que encontrará o Foo Fighters quando encerrar a programação do palco na madrugada.
Para uma banda que fazia ali sua estreia diante do público brasileiro, porém, o tamanho da pista naquele momento parecia uma questão secundária. O que importava era ocupar o espaço.
Nova Twins estreia no Brasil pelo maior palco do Rock in Rio
Há uma espécie de ironia interessante na trajetória da Nova Twins até aqui. Um projeto surgido da cena independente londrina chega pela primeira vez ao Brasil não pela porta lateral de uma casa pequena, mas diretamente pelo Palco Mundo do Rock in Rio, diante de uma estrutura construída para receber alguns dos maiores nomes da música internacional.
Na programação desta sexta, as britânicas foram escaladas antes de The Hives, Rise Against e Foo Fighters, formando a sequência mais diretamente roqueira do primeiro dia de festival.
Amy Love e Georgia South formaram a Nova Twins em Londres e construíram uma identidade que passa justamente pela recusa em escolher apenas uma linhagem musical. O baixo de Georgia, carregado de efeitos e distorções, muitas vezes assume funções que poderiam ser atribuídas a guitarras ou sintetizadores. Amy responde com guitarra, voz e uma interpretação que alterna agressividade e melodias mais abertas.
No palco, essa combinação ajuda a explicar por que duas instrumentistas conseguem produzir um som que parece ocupar muito mais espaço do que a formação sugere.
É rock pesado, certamente. Mas chamar apenas de rock pesado seria reduzir bastante a história.
Entre o punk, o grime e o metal
A Nova Twins pertence a uma geração para a qual a velha discussão sobre a pureza do rock parece especialmente desinteressante.
O gênero, aqui, funciona menos como um conjunto de regras e mais como matéria-prima.
A dupla absorve a agressividade do punk e do metal, mas deixa o baixo trabalhar com frequências e ritmos próximos do hip-hop e do grime britânico. Há efeitos eletrônicos, mudanças de dinâmica, riffs secos e uma preocupação evidente com o groove. É música pesada que também foi construída para fazer o corpo se mover.
Essa mistura já colocou Amy e Georgia em circuitos que durante décadas foram majoritariamente masculinos e brancos. Com “Supernova”, de 2022, a Nova Twins tornou-se a primeira banda de rock formada por mulheres negras a entrar na lista de indicados ao Mercury Prize, além de receber indicações ao BRIT Awards.
Não é um detalhe meramente biográfico.
Quando duas mulheres negras ocupam o principal palco de um dos maiores festivais de rock do mundo tocando uma música tão pesada quanto pouco preocupada em reproduzir os códigos tradicionais desse universo, a própria imagem do gênero se amplia.
Sem discurso didático. Pela presença.
“Parasites & Butterflies” apresenta uma Nova Twins ainda mais aberta
A passagem pelo Brasil acontece na turnê de “Parasites & Butterflies”, terceiro álbum da dupla, lançado em agosto de 2025.
Gravado nos Estados Unidos com o produtor Rich Costey, conhecido por trabalhos com nomes como Foo Fighters, Muse e Deftones, o disco ampliou ainda mais o vocabulário musical da Nova Twins. Faixas como “Monsters”, “Soprano”, “N.O.V.A.”, “Piranha” e “Glory” aproximam peso, eletrônica, melodias pop e momentos mais introspectivos.
É também um álbum menos interessado em sustentar permanentemente uma pose de invulnerabilidade. Questões como identidade, saúde mental, insegurança e empoderamento aparecem em meio ao volume e à distorção.
Essa combinação é parte do que torna a Nova Twins particularmente interessante dentro do rock contemporâneo: o peso não funciona como fantasia nostálgica.
Há referências que remetem ao nu metal, ao rap rock e ao punk, claro. Mas elas passam por uma linguagem moldada por artistas que cresceram ouvindo também hip-hop, grime, R&B e música eletrônica.
O passado está ali. Só não comanda a conversa.
Abrir o Palco Mundo também significa disputar atenção
Existe uma dificuldade própria nos primeiros shows de um festival do tamanho do Rock in Rio.
Enquanto as atrações noturnas recebem uma Cidade do Rock já cheia e uma plateia estabelecida diante do palco, quem abre a programação precisa conquistar um público ainda chegando. Pessoas caminham, tiram fotografias, procuram água, conhecem as instalações e decidem onde passar as próximas horas.
O artista não recebe atenção de presente. Precisa buscá-la.
Foi nesse ambiente que a Nova Twins iniciou o Palco Mundo de 2026.
E, para uma banda que ainda não possui no Brasil a familiaridade de The Hives, Rise Against ou Foo Fighters, há algo produtivo nessa posição. Festival também serve para isso: colocar um artista diante de milhares de pessoas que talvez jamais tivessem comprado ingresso especificamente para vê-lo.
Algumas chegam sabendo as letras.
Outras descobrem a banda quando o primeiro riff atravessa a pista.
Nova Twins ajuda a mostrar onde o rock pode chegar
A presença da Nova Twins logo na abertura oferece ainda uma pequena pista sobre o debate que acompanha o Rock in Rio a cada edição: afinal, o que cabe dentro de um festival que mantém “rock” no nome?
Talvez a pergunta mais interessante já não seja essa.
Depois de quatro décadas, o gênero não precisa necessariamente ser protegido de suas misturas. Precisa continuar encontrando maneiras de produzir novidade.
Amy Love e Georgia South fazem exatamente isso.
Há guitarra. Há baixo distorcido. Há agressividade, riffs e volume suficiente para ninguém questionar a genealogia roqueira das duas. Mas há também grime, hip-hop, eletrônica e uma identidade visual e sonora que pertence inequivocamente ao presente.
Às 16h40 de uma sexta-feira quente no Rio de Janeiro, diante de uma Cidade do Rock que ainda começava a receber seu público, coube a duas britânicas estreantes no país apertar o primeiro botão do Palco Mundo.
O Foo Fighters ainda levaria muitas horas para chegar.
O Rock in Rio 2026, porém, já tinha começado.
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