“Esse festival realmente tem um clima de riqueza”, é o que diz um grupo de fãs recém-chegados ao C6 Fest, cruzando o amplo espaço ainda vazio de público mas repleto de instalações de patrocinadores. É impossível ignorar a realidade: custando 750 reais por dia, o festival – herdeiro do Free Jazz e do Tim Festival – reforça aquele velho conceito de que herança é coisa de gente rica, e não se envergonha por isso.
Em meio a Defenders espalhados pelo Ibirapuera, vejamos por exemplo o line-up gastronômico: Ama.zo, Caco, Chocolat Du Jour, Coffee Walk, Pizzaria da Mooca (opa, falha minha: “Da Mooca Pizza Shop”), Jojo Ramen, Sururu+Moela, Z Deli e outros nomes e pratos raramente vistos em ambientes mais, digamos, populares. Vinho e drinks ampliam o cardápio e oferecem ao público muito além da encarecida cerveja – essa, vendida exclusivamente para aqueles que adquirirem um copo retornável a módicos 5 reais (a única coisa “barata” no evento). Escolhas que reforçam a identidade de um festival que entende seu público e como agradá-lo.
Aliás, “agradar” talvez seja uma palavra-chave aqui. As áreas do Festival se integram ao Parque Ibirapuera com naturalidade, proporcionando um conforto que já se tornou marca registrada do evento. Se não fosse pela chuva, que durante boa parte do sábado incentivou todos a se espremerem debaixo da Tenda MetLife e sob a copa das árvores em frente ao Palco Heineken, a livre circulação, áreas de convivência e espaços abertos dão um tom mais ameno e relaxado. Mesmo ao fim dos dias, quando normalmente o evento se aproxima de sua lotação máxima, ainda havia espaços para transitar com tranquilidade. Um bom exemplo foi justamente o último dia de festival, quando a chuva prevista não caiu e fez com que o público chegasse mais cedo, preenchendo com maior antecedência a Arena Metlife e o Palco Heineken e, ainda assim, mantendo uma circulação tranquila.

Foto: Marcello Fim
Aqui, poucas são as observações: em um festival com uma proposta tão refinada, filas para recarregar as pulseiras poderiam ter sido amenizadas com a simples instalação de totens de autoatendimento (a cerveja era servida assim, em torneiras automáticas). Ou talvez fornecer uma opção para recarga via pix, direto pelo app do banco? Mistérios. Outro ponto é: por mais interessante que seja a ideia de realizar um festival em meio ao parque, a dinâmica de trânsito entre os palcos segue sendo algo curioso, com entradas e saídas constantes das áreas restritas para o ambiente público.
Mas, e a música?
Ok, ok, vamos lá: a seletividade com os serviços oferecidos só não supera a curadoria das atrações. O C6 Fest tem o histórico de não seguir tantas modas, e sempre buscar a construção de um line-up diversificado, interessante e, quando possível, novo. Mas, sem nunca abandonar as escolhas que sabe que farão sentido para o público presente – ao menos, em tese. “O clássico e o novo, juntos” é o monte que assina o perfil do festival em redes sociais, por exemplo.
Poucas atrações, poucas sobreposições, pouca gente: não que 40 mil pessoas seja um número irrisório, mas comparado com festivais como Lollapalooza, The Town e Rock In Rio, que podem chegar a 100 mil pessoas por dia, fica claro o objetivo de construir um evento para uma audiência mais restrita. E com isso, aumenta a necessidade de se acertar em cheio na escolha de quem sobe ao palco.

Foto: Marcello Fim

Foto: Marcello Fim
Há escolhas clássicas, os “medalhões” que garantem a satisfação do público para o caso de as novidades não serem assim tão bem recebidas. No sábado, Mano Brown, Baianasystem e The XX. No domingo, Paralamas do Sucesso, Beirut e Robert Plant. Esses foram momentos especiais, mas algo já dentro do esperado – afinal, como não envolver com o maravilhoso Boogie Naipe, espetáculo criado por Mano Brown para divulgação do álbum de estréia da sua carreira solo que carrega o mesmo nome e que, com um incrível corpo de dança, cria uma fantástica ode à black music no Brasil e no mundo? Na sequência, Baianasystem celebrou suas raízes baianas, brasileiras, latinoamericanas e afro descendentes em uma festa repleta de clássicos como “Lucro” e “Capim Guiné”, com a participação especial dos tanzanianos Makaveli e Kadilida e, no encerramento, a boa surpresa da entrada de BNegão ao palco.

Foto: Marcello Fim
Vamos falar logo do The XX? Sem pisar no Brasil desde 2017 (a banda completa, não seus integrantes em carreira solo), o grupo britânico fez questão de mostrar ao que veio logo na abertura, com “Crystalised”, seguida de “Say Something Loving” e “Islands”. Um show sem grandes pirotecnias ou surpresas, mas que entregou aquilo que todos esperavam: um reencontro, após quase 10 anos, entre um mar de fãs desejosos e uma banda com saudades do calor humano do público brasileiro (que não se conteve e repetia gritos de “gostosa” para Romy).

Foto: Marcello Fim
No domingo, Paralamas do Sucesso e Nação Zumbi comprovaram o motivo de serem garantia de sucesso: com um setlist composto por hinos seguidos de hinos, começando pela trinca “Vital e Sua Moto”, “Ska” e “Loirinha Bombril”. As canções dos Paralamas abriram caminho para a participação da Nação com “Selvagem” e “A Praieira”. O encerramento, depois das tradicionais “Cuide bem do seu amor”, “Aonde quer que eu vá”, “Lanterna dos Afogados”, “A novidade”, “Óculos” e “Meu erro”, ficou a cargo de “O Calibre” e o eterno “Manguetown”.

Foto: Marcello Fim

Foto: Marcello Fim
Na sequência, Beirut subiu ao palco para apresentar um set diversificado, com canções de diferentes álbuns e até mesmo surpresas como “O Leãozinho”, de Caetano Veloso, que comoveu o público. Não ficaram de fora clássicos como “Nantes”, “Postcards from Italy”, “Elephant Gun” e “Santa Fe”. Os americanos possuem um charme singular, e é indiscutível sua capacidade de engajar a platéia com melodias e metais profundamente emotivos.
Para finalizar, Robert Plant teve (quase) tudo, incluindo invasão de fã no palco. Aqui, mantém-se uma curiosidade: ainda que a qualidade musical não esteja em discussão, quantas pessoas vão ao show por ficarem na expectativa de um setlist repleto de músicas do Led Zeppelin? Bom, nessa noite apenas “Ramble On” e “Rock And Roll” entraram na dança, mas o suficiente para deixar todos com aquela esperança: “se ele vier de novo eu vou de novo, vai que ele resolver cantar mais Led Zeppelin”.
Coadjuvantes, mas nem tanto:

Foto: Marcello Fim
Horsegirl
O trio estadunidense abriu o sábado, entrando no palco pontualmente às 14h40: parabéns à produção, pois quase todos os shows tiveram nenhum ou pouquíssimo atraso. Mesmo ocupando esse triste primeiro horário, quando nunca há público suficiente pra encher nem a frente do palco, as meninas de Chicago cumpriram com louvor a missão de tentar animar uma platéia já resfriada pela contínua chuva que caía no Ibirapuera. Aproveitaram bem a oportunidade, e usaram a primeira vez nos palcos brasileiros como laboratório para testar algumas músicas novas.
Baxter Dury
Honestamente? Tudo bem ser experimental, contanto que você ocasionalmente aproveite que está no palco e experimente cantar um pouquinho. Pelo menos 90% da apresentação é conduzida pelos backing vocals, e Baxter apenas fica dançando. Música divertida, performance bem tediosa.
Amaarae
SIM. Depois da abertura de Horsegirl, intimista e aconchegante, a apresentação de Amaarae foi uma das mais enérgicas de todo o dia. A cantora e compositora ganense-americana faz um grande remix de pop, R&B, afrobeats e alté (LMGTFY: “movimento cultural e um subgênero musical originário de Lagos, na Nigéria, que mistura afrobeats, dancehall, reggae, hip-hop e R&B alternativo“). Uma pena que sua apresentação coincidiu com a primeira chuva mais intensa do sábado, o que acabou esfriando um pouco o ânimo do público.

Foto: Marcello Fim
Wolf Alice
SIM e SIM. Sonoridade incrível, presença de palco, energia, vocais de alta qualidade, técnica, diversão. Wolf Alice, apesar de existir dentro de um gênero até relativamente batido, tem competência suficiente para merecer o destaque que vem recebendo no últimos anos – sem falar nas constantes premiações conquistadas na europa e no mercado indie como um todo.
Matt Berninger
Desculpa, estava tocando Baianasystem no outro palco.
Resumo da Ópera
O C6 Fest cumpriu o que prometeu: novidades, line-ups compostos por clássicos e promessas, infraestrutura de alta qualidade (apesar da chuva e do lamaçal que deve ter destruído um bom número de mocassins) e uma experiência confortável e desavergonhadamente elitizada. Há uma sensação perene de “vamos manter a elegância”, com uma sonorização de qualidade mas muitos decibéis abaixo do praticado por outros eventos, e uma consequente resposta do público que, muitas vezes preocupado em não estragar seus looks ou derrubar seus drinks, acabava sendo mais módico em sua empolgação. Para quem pode, muitíssimo recomendável.
Não há comentários enviados